Eurico Borba, Relexões sobre a Crise Global ......

Sociologia´, Política e Religião

Textos

O Passarinho Morreu
O Passarinho Morreu

Um beija-flor morreu hoje cedo e o culpado fui eu.
Vi quando veio veloz à procura da flor ideal – que sempre esperam encontrar –
para cumprir sua missão de fertilizar flores e frutos,
multiplicando a misteriosa maravilh da vida,
em penetrações de seus longos bicos, (falos?),
nas mais recônditas partes das flores, que ali estão prontas para serem fecundadas,
e o fazem incansavelmente, do nascer ao por do sol, com amor e consciência...
Bateu com força no janelão de límpido vidro, que me permite
apreciar a paisagem comodamente, isolado do mundo,
bloqueando o espaço que não me pertence mas do qual me aposei.
No momento do choque, despertado pelo barulho que fez,

tunc,

o meu silêncio desmoronou com a constatação da violência que praticara.
Ergui minha casa no meio da mata,
reino de pequenos animais, insetos, pássaros, flores e plantas várias,
atribuindo-me o direito de delimitar fronteiras – paredes e vidros,
para criar um outro mundo, só meu e de mais ninguém.
Eu aqui dentro, protegido pelos meus gostos, o resto todo aí fora, longe de mim.
Enojado do mundo contentava-me com meu isolamento,
até a morte do pequeno pássaro que rompeu com meu sonho tão cultivado,
para olhar a paisagem, com suas cores cambiantes,
nas várias horas do dia e a noite as estrelas e cada instante me envolver no silêncio,
pouco me importando com todo o resto, desde que Mozart não fosse interrompido
ou perturbado minhas conversas com o Pessoa, o Drumond e o  Maughan....
A natureza, com seus entes fantásticos, lá fora, tratava de me fazer feliz e alegre
com suas coreografias balançando galhos, trazendo os cantos dos pássaros
e o colorido das suas flores e eu, em retribuição, só oferecendo uma pretensa
tranqüilidade, uma paz de espírito, soberba e falsa, agora sei.
Me sentindo pleno e saciado, longe das dores do mundo, arrogantemente
só e egoísta, dizia estupidamente para o vazio tranqüilo dos meus domínios,
imitando Alguém: “Deus viu tudo que tinha feito: e era muito bom”.

Tunc...

Minha “divindade” pretensiosa esborôu-se instantaneamente...
O ruído da pancada de um pássaro, no vidro da janela, eliminara uma vida,
exterminara com um parcela da beleza que procurava cultivar.
A antiga angustia voltou com a convicção de pertença, irremovível, a um mundo cruel.
Nada posso fazer para me isolar dos outros aspectos da vida, que me cercam,
obrigando a participar desta trama que a cada um enreda, inexoravelmente...
Foram tão efêmeros os dias de sossego isolado, da vã esperança de liberdade total,
a ser encontrada na elegância de uma solidão cultivada e querida.
Então chorei, chorei muito, por mim,
pela impotência do vidro da janela em me proteger,
pela morte do beija flor...                                
                                                                        Eurico de Andrade Neves Borba, Ana Rech, março 2012.
Eurico de Andrade Neves Borba
Enviado por Eurico de Andrade Neves Borba em 14/03/2012
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